Cinco projetos, uma pergunta: o que esta marca consegue sustentar para ser reconhecida antes de ser lida?
Uma embalagem boa se reconhece antes de ser lida. Na prateleira, no feed ou na mão de alguém a dois metros, a leitura começa pela forma, pela cor e pelo ritmo, e só depois chega ao texto. Isso não acontece por acaso, nem por volume: acontece quando poucas decisões são tomadas com rigor e sustentadas até o fim.
Para nós, o trabalho começa aí: uma forma, uma cor, uma voz. Cinco projetos recentes mostram como essa ideia muda de cara conforme a marca, sem mudar de pergunta.
Reconhecer de longe não é gritar mais alto
No Cheirinho da Farm, o ponto de partida foi um cheiro, o mais invisível dos vínculos, e a vontade de dar a ele peso, forma e permanência. O tucano, ícone histórico da marca, foi despido de literalidade e reduzido à sua essência estrutural: dois arcos sobrepostos.
O difusor, num mercado saturado de frascos utilitários e genéricos, foi reposicionado como objeto escultural e decorativo. Isso exigiu eliminar o excesso gráfico e, por meio de protótipos e refinamento da forma, deixar que a própria estrutura tridimensional assumisse o papel principal na comunicação. A cor tem função quase arquitetônica: cria um ponto de tensão dentro do ambiente doméstico e conduz o reconhecimento à distância. As proporções dos arcos foram calibradas para dar estabilidade, e o sistema de refil mantém a peça em uso por muito mais tempo.
Uma regra que deixa a linha crescer
O Unhinged nasceu para quem tem dias que não seguem o relógio, e a embalagem precisava ser tão clara quanto o conceito: é cedo demais, é tarde demais, perfeito. A regra é simples. O papel cromado é o mesmo em todos os sabores e só a faixa de cor muda.
Com isso, cada barra se identifica de relance, e a linha já nasce pronta para novos sabores, formatos e até bebidas, sem perder o que a torna reconhecível. Preto, cinza dos anos 2000 e cromado fazem a base. As cores entram como sinal, não como enfeite, e a tipografia e as listras fazem o resto do trabalho de memória.
Falar com duas pessoas ao mesmo tempo
No mercado brasileiro de gomas infantis, as marcas costumam escolher um lado: a força funcional que tranquiliza os pais ou a diversão que conquista as crianças. Poucas fazem as duas coisas. A Muupi parte de uma vantagem, os personagens e a confiança herdados da Booma, e de uma cena que se repete em casas com crianças a partir de dois anos: a discussão diária para tomar o suplemento.
A resposta foi dar à rotina um personagem, uma história e um horário. A embalagem divide a conversa: a frente fala com a criança por meio de um personagem, de uma cor e de um convite, e o verso fala com os pais por meio de função, composição e modo de uso. Os frascos arredondados e esculturais trazem os personagens para as três dimensões e fazem de cada suplemento algo para reconhecer e colecionar.
Contenção também é uma decisão
O Velmont é uma casa de chocolate de luxo que controla todo o processo a partir da torra, no modelo bean-to-bar, e precisava de uma identidade à altura da própria ambição: vender também para restaurantes de alta gastronomia. Em vez dos marrons e dourados típicos da categoria, um verde-floresta profundo cria diferenciação imediata na prateleira. Um logotipo serifado com espaçamento generoso e um monograma que funde V e M constroem uma presença refinada.
A ideia central parte de uma tensão: do rigor vem o extraordinário. A sofisticação é entendida como disciplina, não como suavidade. Por isso a embalagem trocou o cartonado por uma lata, e cada decisão gráfica responde ao mesmo princípio: a distinção vem da contenção.
Excesso com método
O Teddy Glow, extensão de cosméticos da Teddy Fresh, vive no cruzamento entre moda e beleza. Traduz a linguagem expressiva do streetwear para uma categoria sensorial, em que o impacto visual precisa conviver com o desempenho do produto. O contraste é princípio: lúdico e preciso, ousado e controlado, colecionável e funcional.
O ursinho, ícone da Teddy Fresh, aparece como silhueta gráfica, relevo e pingente, o que garante reconhecimento imediato em materiais e formatos diferentes. A paleta de lavanda, verde-limão, laranja-sangue e preto reúne cores que normalmente não convivem, e o preto dá maturidade ao conjunto. Tampas esculturais, relevo metálico e formatos inesperados, como a paleta de sombras metálica com aparência de balão inflado, fazem de cada embalagem um objeto de desejo.
O que levamos de cada caso
Marcas diferentes, o mesmo conjunto de perguntas. Qual é a única coisa que identifica esta embalagem a distância? O que acontece quando a linha dobrar de tamanho? Com quem cada parte da embalagem está falando? E, no fim, o que esta marca consegue sustentar?
É o que buscamos em cada projeto: menos elementos, mais clareza e uma identidade que continue funcionando quando a linha cresce.
Embalagem que se reconhece de longe — Sweety & Co.